Tal como acontece com qualquer corrida automóvel célebre, as 24 Horas de Le Mans têm uma máxima associada, aparentemente retirada de umaquelas publicações insuportáveis sobre bem-estar. Diz algo como: «não escolhes Le Mans, é Le Mans que te escolhe a ti».
Mas há um aforismo mais simples e certeiro. É muito provável que Dante não fosse propriamente um grande apreciador de corridas de resistência, mas uma frase da sua Divina Comédia parece feita para ser impressa e pendurada sobre a Ponte Dunlop, de tão adequada que é.
«Abandonai toda a esperança, vós que entrais.»
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Ferrari e as 24 Horas de Le Mans
Nenhum construtor ou piloto enfrenta este ataque brutal aos sentidos e à mecânica convencido de que vai vencer. Nem uma equipa e marca com a história da Ferrari. O último triunfo da Scuderia remontava a 1965, numa das edições mais estranhas da história da prova, quando alcançou uma vitória improvável que até um experiente editor de argumentos de Hollywood rejeitaria por ser «demasiado óbvia».
O mesmo se aplicava à edição de 2023. Mesmo tendo conquistado a pole position, persistiam dúvidas sobre a capacidade de enfrentar a campeã em título, a Toyota. «A questão é: somos os mais rápidos?», disse o britânico James Calado ao TopGear.com antes da corrida. «Fomos tão rápidos quanto podíamos na qualificação. Mas os Toyota têm desempenho de sobra. Não estão a usar os correctores e coisas do género, por isso vamos ver.»
O facto de a equipa vigiar atentamente a utilização dos correctores pelos pilotos da Toyota na qualificação revelava alguma prudência e realismo quanto às suas hipóteses. Até, convenhamos, de simplesmente chegarem ao fim das 24 horas. «Em junho [do ano passado], ainda estávamos a testar o chassis em Maranello; depois tivemos a paragem [da fábrica] em julho. O trabalho foi intenso e, em nove meses, ninguém tinha a certeza de que a fiabilidade [do 499P] estaria assegurada», explica Ferdinando Cannizzo, responsável da Ferrari pelos carros de resistência.
«O nosso projecto começou há dois anos», acrescentou o chefe de equipa Antonello Coletta, explicando quão recente era todo o esforço. «Um ano depois, vimos o primeiro desenho do carro. Em julho do ano passado, organizámos o primeiro teste em Fiorano», disse, referindo-se ao primeiro verdadeiro ensaio do carro. «Depois estivemos em Sebring para os dois últimos testes, em janeiro e fevereiro [antes da primeira corrida a sério do 499P, em março, na mesma pista], por isso, como podem imaginar, o tempo foi muito, muito curto.
«Os outros concorrentes tiveram oportunidade de organizar muitos, muitos mais testes do que nós. Gosto de recordar que, quando tínhamos apenas o desenho do nosso carro, a concorrência já estava em pista.»
O desenvolvimento do Ferrari 499P
O processo de desenvolvimento foi intenso e um automóvel complexo - o 499P combina um V6 biturbo de 3,0 litros com um motor eléctrico e um gerador - trouxe as suas complicações. «As áreas que se revelaram mais exigentes foram a electrónica, a parte relacionada com o grupo motopropulsor híbrido e o sistema de tracção integral», afirmou Giuliano Salvi, responsável pelos testes de carros desportivos da Ferrari, sobre os ensaios de pré-época. «Mas, teste após teste, fomos melhorando o seu funcionamento.»
O progresso foi tal que a equipa arrancou em força na primeira corrida do WEC, em Sebring: conquistou a pole position e terminou no pódio com o carro #50 (o #51 acabaria em sétimo, após um contacto). Portimão trouxe resultados ainda melhores, com os dois Ferrari a terminarem em 2.º e 6.º. Na corrida que antecedeu Le Mans - as seis horas de Spa - o #51 terminou em terceiro, mas o carro #50 foi obrigado a abandonar. Ao longo de toda a época, ambos os carros ficaram atrás dos Toyota.
Seguiu-se o grande momento em Le Mans: 24 horas ainda não testadas de luta intensa contra os favoritos ao campeonato. E não eram os únicos adversários, pois havia também Porsche, Peugeot e Cadillac. Antes da prova, Coletta avaliava com cautela as possibilidades da sua equipa. «Abordamos este campeonato com a máxima humildade. Não sei se temos hipótese de bater a Toyota - acredito que não seja fácil. Mas, em todo o caso, posso garantir-vos que daremos o nosso melhor.»
A vitória da Ferrari em Le Mans
A Ferrari ocupou toda a primeira fila na qualificação Hyperpole e lançou-se depois para a batalha. Le Mans deste ano foi extraordinariamente dura e, um a um, os principais rivais da Ferrari foram cedendo, deixando um formidável duelo entre o carro #51 e o Toyota #8. Quando o desastre atingiu o Toyota, a Ferrari ganhou uma preciosa margem de segurança. Uma margem posta à prova quando - na última paragem nas boxes antes do final da corrida - o 499P de Pier Guidi se recusou a voltar a arrancar. A electrónica que Salvi tinha referido nos testes regressara para os assombrar.
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Enquanto o público sustinha a respiração, a Ferrari guiou Alessandro, muito calmamente, por todo o ciclo de arranque - aliás, já tinham enfrentado o mesmo problema durante a corrida - e, assim que as luzes se acenderam e PG voltou à liderança, foi então que Coletta sentiu que podia alcançar o impossível.
«Tive a sensação de que, sim, podíamos ganhar a corrida quando o carro arrancou na última paragem nas boxes, a 15 minutos do fim da corrida!», disse Coletta. Depois desse instante de cortar a respiração, o carro #51 cruzou a meta e garantiu a décima vitória absoluta da Ferrari.
O antigo piloto de F1 Antonio Giovinazzi descreveu a dimensão da montanha que a equipa escalou. «Conduzimos este carro pela primeira vez em julho passado, por isso conseguir este resultado, pole e vitória, em menos de um ano, é sem dúvida fantástico. De modo nenhum era garantido que conseguiríamos.»
Talvez Dante tivesse razão.
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