“Quinhentas milhas? Credo, quinhentas milhas não chegavam para sair do Texas.” Pausa. “A não ser que fosses na direcção da Louisiana.” Claro que isso depende do ponto de partida no Texas, penso eu, mas opto por não o dizer. Só agravaria a já generalizada sensação de confusão. Ele está de férias. Adivinhem de onde vem.
Achei que somar mais de 800 km numa ilha com apenas 71 por 48 km já era um feito respeitável, mas Oahu não é a América. É um sítio minúsculo, menor do que Houston. Ainda assim, concentra muito: cenários de cinema, encontros de Mustang, surf, vulcões, camisas ridículas, um maldito girocóptero e um autosolo. Chegámos, fizemos shaka, dissemos brah e fomos embora.
Nada une estas experiências além da geografia. Mas esta é, afinal, uma história de geografia. E de história. Portanto, comecemos por aí. Em 2014, quando a revista Top Gear contava apenas 263 edições (21 em anos humanos), conduzimos um Ford Mustang pelos Estados Unidos. Não atravessámos o país: visitámos todos os estados. A lógica era simples: o Mustang completava 50 anos e os Estados Unidos da América são formados por 50 estados. Logo, visitaríamos cada um deles. Partimos do canto superior direito e terminámos no inferior esquerdo. Foi uma viagem de números épicos: 17 984 km em 15 dias, quatro equipas diferentes e 32 depósitos de combustível. E, mais relevante, privação de sono, alucinações, um cheiro no habitáculo que ainda hoje provoca reflexos de vómito e uma admiração verdadeiramente profunda pelo automóvel desportivo favorito dos americanos, o Mustang.
Fotografia: James Lipman
Contudo, fazer os 48 estados continentais mais o Alasca não perfaz 50. O plano passava por colocar o Mustang num navio rumo ao Havai, mas a Ford queria expor o carro, coberto pelos autocolantes dos 49 estados, e não havia tempo suficiente para o levar e trazer. Durante anos, ficou como assunto por resolver.
O problema da nossa viagem épica foi termos regressado com uma ideia global da América, mas sem conhecimento aprofundado de cada estado. Desta vez, tenho oportunidade de corrigir isso. E a primeira coisa de que me apercebo é da burocracia. Alguns dias mais tarde, alguém descreve o Havai como “um país de primeiro mundo com burocracia de terceiro mundo”. O Mustang, enviado expressamente do Michigan, está retido na alfândega. Por isso, em vez de participar, vou assistir a um autosolo no Aloha Stadium. Existia uma pista de corridas em Oahu, mas fechou em 2006; agora, os entusiastas locais do desporto motorizado limitam-se a atacar cones num parque de estacionamento. O entusiasmo não diminuiu, nem a esperança de que as petições dêem frutos um dia. Há muitos aeródromos militares espalhados por Oahu que funcionariam brilhantemente como circuitos.
Recolho o automóvel no dia seguinte. É o Mustang mais Mustang possível: um GT 5.0 litros, com V8 atmosférico e caixa manual, pintado em Grabber Blue e equipado com o Bronze Pack. Em vez de conquistar os autocolantes em cada fronteira estadual, como da última vez, colo-os logo todos. Faço-o na tentativa de integrar o Mustang no ambiente. A decisão revelar-se-á profundamente errada.
Ford Mustang em Oahu: um V8 que pouco mudou
Agora tenho de vos revelar um segredo. O plano era termos dois Mustang: este e o original. Mas o primeiro desapareceu. A Ford não o encontra. Estava na colecção e agora sumiu-se; talvez tenha sido vendido ou emprestado a um concessionário e esteja hoje abandonado num canto de um parque algures no coração da América. Teria sido uma comparação interessante porque, francamente, pouco mudou em nove anos. Aparentemente, a Ford ponderou electrificação, híbridos e todo o resto para a sétima geração, antes de concluir que faria precisamente o mesmo de sempre: enfiar um V8 Coyote, retocar o restante, limpar as mãos, assentir e dizer “sim, isto é um Mustang”.
Houve, naturalmente, alterações. O motor respira melhor e ganhou 30bhp, chegando aos 480bhp; a direcção passou a ter uma cremalheira mais rápida, com relação 15.5:1 em vez de 16:1, e pontos de fixação mais rígidos. Mas, como as proporções e o desenho familiares deixam antever, mantém o chassis de aço, suspensão dianteira McPherson e traseira multibraços. Esta unidade inclui também o Performance Pack de $4,995 [£3,950] - barra de reforço, diferencial autoblocante Torsen, jantes e pneus mais largos e travões Brembo de maiores dimensões -, mas não recebeu os amortecedores adaptativos MagneRide de $1,750 [£1,400].
Instalo-me e sigo para norte, saindo de Honolulu para me juntar à multidão. Para a maioria dos americanos, o Havai é território de férias. Ficam todos em Honolulu, a grande cidade, mas espalham-se pela ilha de manhã e regressam como a maré ao fim do dia. A cadeia havaiana é composta por seis ilhas principais e Oahu, embora não seja a maior em área, é claramente a mais populosa e procurada. O trânsito arrasta-se. Pearl Harbour passa à minha esquerda. Tinha um plano: queria terminar esta reportagem com o Mustang estacionado junto à proa do USS Missouri, o navio onde foi assinada a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial. Mas a minha visita coincidiu com os trágicos incêndios florestais em Maui, e a marinha foi chamada para apoiar as operações de resgate. Maui não fica longe; os fogos afectam pessoalmente quem vive aqui e receia-se que as chamas possam também chegar a Oahu.
À medida que o Mustang rosna rumo a norte, o terreno eleva-se através de uma planície agrícola central, entre as duas cadeias montanhosas que dominam a ilha. Em Waialua, chega-se à North Shore, o centro do surf. Toda a costa no extremo norte é famosa pelas ondas gigantes que descem do Pacífico Norte durante o inverno e transformaram este lugar numa meca mundial da modalidade.
Não vou para a praia, mas para um engenho açucareiro degradado, hoje convertido num centro de fabricantes de pranchas de surf. Eric Arakawa molda pranchas há quase 50 anos. Moldar é a arte, e “o básico é que, quanto maior for a prancha, maiores serão as ondas que consegues surfar”, explica-me. “Mas a chave está no perfil da borda, porque é isso que determina como ela entra na face da onda quando viras.” As pranchas de surf são simples: utilizam espuma de alta densidade, com uma longarina de madeira inserida entre a ponta dianteira e a traseira para acrescentar resistência e controlar a flexão. Mas, aprofundando o assunto, percebe-se o equilíbrio entre arte e ciência. O desenho inicial é feito em CAD; os blocos de espuma, já com as longarinas, são depois maquinados até à forma pretendida. Segue-se a componente artística: o trabalho manual que dá a cada prancha as características necessárias e um acabamento perfeito. A camada final de fibra de vidro e a montagem das quilhas contam apenas metade da história. Tudo importa, desde os diferentes tipos de madeira usados na longarina até ao formato das quilhas. “Fazemos pranchas personalizadas, considerando a estatura e o peso de cada pessoa, a experiência que tem e o tipo de ondas que vai apanhar”, continua Eric. “E o surfista típico daqui de cima não terá apenas uma prancha; terá várias, para condições diferentes.”
O Mustang precisa de transportar uma prancha. Trouxe do Reino Unido o meu suporte insuflável - usado anteriormente para levar esquis num Audi R8 - e monto uma das pranchas leves e elegantes de Arakawa. Pergunto a Sean, filho de Eric, se o Mustang passa no teste como carrinha de surf. A resposta é uma careta. “Aqui em cima, se quiseres ter o aspecto certo, precisas de uma pick-up Toyota Tacoma. Um Mustang?” Suspira. “É o que os turistas conduzem.” Ah. Já calculava que isto viesse a acontecer. Em Oahu, os Mustang, sobretudo descapotáveis, são vulgares e são conduzidos por pessoas que provavelmente deixaram uma monovolume no aeroporto quando aterram. Seguimos pela costa, com as quilhas da prancha a sobressaírem do Mustang como um par de chifres. Mas Sean tem razão: destaca-se como… bem, como um Mustang azul vivo entre as inúmeras Tacoma da comunidade do surf. Aqui em cima é tudo extraordinário. Entre a vegetação luxuriante, edifícios coloridos deixam entrever areia macia e um mar revolto. Pode não ser a época alta do surf, mas lá fora a água está agitada.
Encontro Mustang no centro de Honolulu
Está na altura de ir para um sítio onde o Mustang certamente se integrará… o nosso próprio encontro de Mustang. São 18h00 no centro de Honolulu e não há um único lugar de estacionamento disponível em Magic Island, por isso paramos na zona de cargas e descargas. Ninguém se importa: a noite está magnífica e toda a gente saiu para fazer exercício. O cenário, com palmeiras, Ala Moana Beach, arranha-céus e céu de pôr do sol, é fascinante, ainda que um cliché. Honolulu recorre a árvores exóticas para desviar a atenção do betão e do trânsito; há algo de Las Vegas no ambiente.
Ainda assim, o Aloha Mustang and Shelby Club of Hawaii acredita que o nosso é o primeiro Mustang de sétima geração na ilha. Rodeiam-no de imediato. O habitáculo recebe muitos elogios, sobretudo pelos ecrãs nítidos com grafismos comutáveis e pelo novo Drift Brake. Esta é a Ford no seu estado mais audaz e criativo. Trata-se de um travão de mão eléctrico com accionamento físico: um puxão ou toque rápido liga-o ou desliga-o; pode puxar-se mais para desacelerar o carro ou seleccionar o modo Drift, em que uma pressão breve bloqueia instantaneamente as rodas traseiras. Não cheguei sequer perto dele. Prometo.
O grupo não está preocupado por o Mustang ter mudado pouco; sente antes alívio por conservar o V8. Mesmo Terrence Iwamoto, que usa uma camisa Mustang, mas conduz um Mach-E. Pergunto a Lester Hirano, proprietário de um reluzente Mustang de ’86, o que acha do Mach-E. Antes, certifica-se de que Terrence está longe. “Bem, ele é o presidente do clube, por isso tivemos de o aceitar, mas não é um Mustang, não devia usar esse emblema.” Mais tarde, ouvem-se estremecimentos quando Terrence conta aos presentes que talvez compre uma nova coluna de som do mercado de acessórios, instalada sob a traseira do Mach-E, para o fazer soar como um V8.
Há aqui uma excelente selecção de carros, desde um original de 1966 até um GT500 de 2021. Pergunto-lhes, porque sempre me intrigou, se encaram o Mustang como um muscle car. “É demasiado pequeno”, “é um carro desportivo”, “um muscle car tem de ser uma versão de duas portas de um sedan de quatro portas”. Para uma mentalidade europeia, é um carro grande e musculado, mas até no Havai, onde predominam veículos mais pequenos, maioritariamente japoneses e coreanos, o Mustang é considerado um automóvel desportivo.
Termino a visita a recolher sugestões de boas estradas e, na manhã seguinte, sigo para o canto sul para apanhar o amanhecer junto à cratera Koko. O Mustang parece agora mais coeso: há menos rudeza e mais maturidade e controlo na suspensão, enquanto a direcção está mais firme. Suspeito que seria mais sofisticado com os amortecedores adaptativos MagneRide, mas, pela experiência anterior, os Mustang não costumam desintegrar-se no limite. Na verdade, melhoram. Só que este não é o local para experimentar, pois 10 minutos antes de o sol nascer aparecem os turistas com os seus paus de selfies.
Retiro-me para conhecer a estrada mais impressionante da ilha. A auto-estrada H3 é profundamente controversa. Concluída em 1997, atravessa a ilha subindo por um dos vales mais intocados, antes de perfurar as montanhas cobertas de verde. A oposição local foi intensa, em especial devido ao custo de construção de £1bn. Elevada sobre o fundo do vale na maior parte do percurso, através de viadutos, permite conduzir ao nível das copas das árvores. As vistas são arrebatadoras, mas percebe-se que é uma intrusão. Neste momento, dirijo-me ao Kualoa Ranch. Nunca ouviram falar dele, mas garanto que já o viram. É onde Hollywood vai quando precisa de uma ilha tropical, montanhosa e desabitada. Jurassic Park, Lost, King Kong - todos foram filmados aqui, juntamente com cerca de mais 200 produções. Levo o Mustang para fora de estrada e ele é suficientemente robusto para lidar facilmente com a tarefa. É mais resistente do que o típico carro desportivo, embora permaneça bastante firme nos comandos. Todos os controlos têm peso, mas isto é um Mustang; não deve ser uma condução delicada. Há substância, mas também precisão. O V8 ronrona de forma deliciosa a baixos regimes e o Mustang sobe Jumanji Ridge, passando pelo crânio de Kong, sem raspar nem patinar uma única vez. Excepto quando é essa a minha intenção.
Nas raras ocasiões em que encontro espaço para soltar o V8, ele ruge com força. É um autêntico exibicionista, mas há mais: o desempenho tem uma faixa superior mais incisiva. Este é o primeiro Mustang “básico” que conduzo e que é genuinamente rápido, estando à altura da sua massa. Porém, não responde de forma particularmente imediata. Demora a perder rotações em desaceleração e há inércia na transmissão.
Percebe-se por que razão Hollywood vem até aqui. É uma perfeição estética: um vale amplo, verdejante e semelhante a uma pradaria, ladeado por imensas paredes de rocha verde impossíveis de escalar. Mas vê-se sempre tudo a partir de baixo. Nenhuma estrada - e, na realidade, poucos trilhos - sobe verdadeiramente as montanhas: são demasiado íngremes, não faria sentido. Teria ficado satisfeito por deixar as coisas assim, mas surgiu então uma oportunidade…
Oahu vista de um girocóptero
Tudo começou como um plano para encontrar algum local onde pudesse libertar o Mustang, mas, como todos os aeródromos de Oahu continuam a ser propriedade militar, isso estava fora de questão. Mas voar num girocóptero? Bem, mais precisamente sobre um girocóptero. Isso era possível. Aceitei porque James Alaggio parecia alguém em quem podia confiar, tinha um currículo de voo invejável e dava a entender que dominava a física que mantém este insecto mecânico no ar.
E foi deslumbrante, a forma mais livre de voo motorizado que se consegue imaginar. E, quando chovia, a mais avara. Mas, a um quilómetro de altitude, obtém-se outra perspectiva: percebe-se como funciona o clima local, como as montanhas espremem a chuva das nuvens, deixando a costa oriental encharcada e verde e a ocidental seca e acastanhada. Vêem-se as praias, os recifes e o formato do fundo oceânico que determina tanto a forma como as ondas rebentam. E compreende-se que o Havai, esta série de pontos no Pacífico, pouco tem realmente em comum com o resto dos EUA.
Penso nisso quando, mais tarde, regresso a sul ao som grave do motor. O Mustang é um símbolo poderoso da América - foi por isso que se tornou tão popular quando chegou à Europa em 2016. As pessoas não compravam tanto um automóvel como uma afirmação de estrelas e riscas. No Havai, porém, o Mustang é interpretado de outra forma. Representa a separação entre o continente, que usa as ilhas para se divertir, e a população permanente. Existe uma mentalidade de nós contra eles, a sensação de que os EUA se impuseram ao Havai desde que este passou a fazer parte da união em 1959.
Também é curioso, não é, que, enquanto na Europa o Fiesta, o Focus e o Mondeo estão mortos ou a morrer, dando lugar a crossovers, hibridização e electrificação, na América o Mustang prossiga exactamente como antes. E chega à Europa no próximo ano - V8, emissões de CO2 de 300g/km e tudo o resto. Tal como os EUA e o Havai, as duas estratégias chocam uma com a outra. Corre o rumor de que este Mustang é uma solução provisória e de que a Ford cederá ao inevitável, adoptando um híbrido ou eléctrico antes do final da década.
Nem sequer estou dividido nesta questão. Sei que é uma decisão empresarial racional e que o Mustang venderá bem a quem já o adora, mas, em vez de ter sido o último a sair, gostava que a Ford tivesse sido a primeira a saltar, reinventando o Mustang para uma nova era. Talvez tivesse sido melhor recebido em Oahu, embora não pelo meu amigo do Texas.
Com agradecimentos a: @Nakedgyro, arakawasurfboards.com, Jarrod Silcox e OhanaMotorsportsFoundation.com, Alohamustang.org, kualoa.com, GoJump Hawaii, Dillingham Airfield, Anna Metcalfe e Savanna Gonzales em Hawaii.gov, a equipa de Pearl Harbour e o USS Missouri






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