A Ford (Europa), a Volvo e a Bentley comunicaram que passarão a ser 100% elétricas a partir de 2030. A Jaguar antecipará essa transição para 2025, ano em que a MINI colocará no mercado o seu derradeiro veículo equipado com motor de combustão interna. Até a pequena e desportiva Lotus aderiu a esta vaga de anúncios: lançará este ano o seu último automóvel com motor de explosão, seguindo-se uma gama exclusivamente composta por Lotus elétricos.
Outros construtores ainda não assinalaram a data em que abandonarão definitivamente o motor de combustão interna, mas já revelaram os investimentos muito elevados que terão de realizar nos próximos anos em mobilidade elétrica. O objetivo é que, no fim da década, os veículos elétricos representem metade das suas vendas totais.
Entretanto, para muitos destes fabricantes, a evolução do motor de combustão parece destinada a ficar “congelado” nos próximos anos. A Volkswagen e a Audi, por exemplo, pertencentes ao mesmo grupo automóvel, já confirmaram que não desenvolverão novos motores térmicos, limitando-se a adaptar as unidades atuais a eventuais exigências regulamentares.
Demasiado cedo?
Não é habitual a indústria automóvel fazer anúncios tão categóricos com um horizonte temporal tão distante. Afinal, o mercado está longe de ser totalmente previsível: quem teria antecipado a pandemia e percebido, à distância, os impactos que teria em toda a economia?
Ainda que 2030 pareça uma data longínqua, o calendário deve ser encarado de outro modo: até lá há espaço para duas gerações de um modelo. Um automóvel lançado em 2021 permanecerá à venda até 2027-28, o que significa que o seu sucessor terá já de ser 100% elétrico para respeitar o calendário definido - e será que esse modelo conseguirá os volumes e margens do modelo com motor de combustão?
Por outras palavras, os construtores que assumiram um futuro inteiramente elétrico dentro de 10 anos precisam de criar as bases para esse cenário… já. Terão de desenvolver plataformas novas, assegurar o fornecimento das baterias de que necessitarão e converter todas as fábricas a este novo paradigma tecnológico.
Apesar disso, esta transformação parece antecipada.
O mundo gira a velocidades distintas
Enquanto a China e, acima de tudo, a Europa pressionam mais pela alteração de paradigma, o restante mundo não acompanha necessariamente esse ritmo. Na América do Sul, Índia, África e em grande parte do Sudeste Asiático, a eletrificação está ainda nos primeiros passos ou nem sequer arrancou. Contudo, a maioria dos construtores que coloca cada vez mais todos os ovos no mesmo cesto tem uma presença global.
Perante a transformação crucial pretendida, o esforço gigantesco que requer e os riscos significativos que envolve - os custos exorbitantes desta mudança poderão pôr em causa a viabilidade de vários construtores caso não surjam retornos -, não deveria existir melhor coordenação mundial neste tema, para aumentar as probabilidades de sucesso da transição exigida?
Como referi, a mudança continua a parecer prematura.
O veículo elétrico a bateria é apresentado como uma solução messiânica, capaz de resolver todos os problemas do mundo… No entanto, apesar da enorme atenção mediática, a sua adoção prática mantém-se muito reduzida e circunscrita a determinadas regiões do globo - quanto tempo demorará até chegar a todo o lado? Décadas, um século?
E, até lá, que fazemos? Ficamos à espera?
Porque não usar o que já temos também como parte da solução?
Se a questão eram os combustíveis fósseis de que o motor de combustão interna dependia, já dispomos de tecnologia para os dispensar: os combustíveis renováveis e sintéticos conseguem atenuar eficazmente as emissões de gases com efeito de estufa e reduzir até outros poluentes - sem obrigar ao abate, de uma só vez, de centenas de milhões de veículos. Os combustíveis sintéticos podem ainda constituir o impulso decisivo para a chamada economia do hidrogénio, pois este é um dos seus ingredientes, sendo o outro o dióxido de carbono.
Mas, tal como se verificou com as baterias, tornar viáveis estas e outras soluções alternativas também exige investimento.
O que não pode acontecer é a visão limitada atual parecer querer fechar a porta à diversidade de soluções necessária para um planeta melhor. Depositar todos os ovos no mesmo cesto poderá ser um erro.






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