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Ken Block: o legado que reinventou o automobilismo

Homem com boné e óculos reflete cenas de carros de corrida e movimento numa estrada sinuosa de montanha.
Neste artigo
  1. Ken Block e o nascimento da Gymkhana
  2. Ken Block no WRC e a mudança para a Ford
  3. Hoonigan, Hoonicorn e um legado duradouro

Transformou um sector e reinventou-o à sua imagem. As provas estão por todo o lado, confirmadas pelo facto incontornável de o seu nome e a sua franquia Gymkhana terem passado a ser uma designação genérica para qualquer filme que desfaz pneus. Ou, como lhes chamava, tires.

Para a maioria de nós, Ken pareceu surgir do nada em 2008, a deslizar num Subaru, mas a sua vida já era notável. Em 1994, fundara a DC Shoes com dois sócios, vendeu-a à Quiksilver em 2004 e procurava formas de se divertir quando se cruzou com os automóveis. Era um enorme fã de ralis e depressa ficou evidente que Ken tinha um controlo excepcional do carro, dando assim início ao seu percurso. Mas, como em tudo o que fazia, jogou com inteligência.

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Ilustração:* The Red Dress Fotografia: arquivo Hoonicorn*

Esta reportagem foi originalmente publicada na edição de Março de 2023 da revista Top Gear

Ken Block e o nascimento da Gymkhana

Em vez de gastar dinheiro a tentar tornar-se no próximo Loeb, ele e alguns amigos filmaram um vídeo com o seu Subaru de ralis, adoptando a designação gymkhana, oriunda das provas japonesas de autotesting. O vídeo explodiu na internet e a maioria dos criadores estabelecidos de vídeos de automóveis - eu incluído - pensou: porque raio não me lembrei eu disto? Talvez sem se aperceberem, Ken e a sua pequena equipa mudaram para sempre a relação entre conteúdo, patrocínios e promoção de marcas. Tal como acontece com as alterações mais profundas a práticas já instituídas, tudo aconteceu por acaso - ainda que com uma boa dose de orientação e perícia.

Seguiu-se a continuação, engenhosamente baptizada de Gymkhana Two. Para muitos, foi aí que tudo mudou realmente. Lembram-se de ver aquele Subaru a esmagar tubos fluorescentes em câmara lenta? Seguramente, foi nesse momento que muitos responsáveis por orçamentos de marketing disseram: “Já não quero saber de publicidade impressa, gastem o que temos a fazer parte desta loucura”. E foi exactamente isso que fizeram.

O que a maioria das pessoas desconhecia era que Ken vencera o seu primeiro Rali da América do Norte em 2006 e tinha fama de ser muito competente ao volante. Para quem o conhecia, o controlo demonstrado naqueles dois primeiros filmes era perfeitamente lógico, mas o grande público queria saber até que ponto ele era verdadeiramente bom. Foi por essa altura que conheci Ken pela primeira vez, quando estava na M-Sport para testar o seu novo Focus WRC, que utilizaria em algumas provas seleccionadas do campeonato.

Era completamente diferente do que eu esperava: falava com calma, era modesto e sabia ouvir. Também tinha muito claro o que pretendia alcançar num carro de ralis de topo: essencialmente, queria divertir-se. Estava acompanhado pelo seu braço-direito, Brian Scotto, a força criativa por trás da franquia Gymkhana e o homem muitas vezes encarregado de falar quando Ken preferia não o fazer. Juntos, formariam uma temível parceria comercial e artística.

Ken Block no WRC e a mudança para a Ford

O que fez foi virar o desporto do avesso. Ouviam-se muitas vozes negativas em torno da sua participação no WRC. Alguns não gostavam da forma como tinha comprado a entrada numa equipa - é assim que funciona grande parte do automobilismo, é para pessoas ricas - e a crescente comunidade de guerreiros de teclado dizia que ele não era assim tão bom ao volante. Naturalmente, estavam errados quanto a isso, mas ninguém, incluindo vergonhosamente a FIA, reparou que o carro de Ken era o mais fotografado e divulgado em todas as provas.

Ainda assim, a Comissão de Ralis nunca pareceu interessada em ouvir as suas ideias sobre como os ralis - um desporto que já enfrentava dificuldades nessa altura - poderiam atrair um público mais jovem. Por isso, Ken competiu durante alguns anos, alcançou um memorável sétimo lugar no México em 2013 e encerrou esse capítulo em 2014.

É nesta altura que deveria mencionar a guerra online entre Ford e Subaru, mas quase não consigo fazê-lo. Basta dizer que a troca do Subaru pela Ford - onde desempenhava plenamente o papel de embaixador da marca - levou a comunidade automobilística mais partidária a chamá-lo Judas. Grande parte dessas reacções foi desagradável. A única pessoa que parecia pouco afectada era Ken. Limitou-se a deixar os números de visualizações crescerem.

Nessa fase, já era uma estrela. Uma participação no Top Gear, em 2009, durante a qual aterrorizou James May, levou-o ao grande público, e os números continuaram a subir. Havia algo de magnético na forma como Brian e Ken faziam as coisas. Não consigo definir nem descrever com exactidão o que era, mas em mim provocava simplesmente a vontade de estar presente quando filmavam.

Lembro-me de conduzir até um circuito abandonado a sul de Paris para os ver gravar Gymkhana Three. Talvez daí pudesse sair uma pequena história para alguma revista, mas eu só queria assistir a tudo. Também me tornei bastante protector perante as críticas à condução: sabendo o que sabia sobre fazer deslizar um carro, percebia que Ken enfrentava desafios extremamente técnicos, e a forma como conseguia executá-los com tão pouco treino fez-me perceber que trabalhava a um nível acima do da maioria de nós.

Hoonigan, Hoonicorn e um legado duradouro

Com a marca Gymkhana já em plena ascensão, Ken e Brian concentraram-se no lançamento da Hoonigan, um movimento de vestuário dirigido à comunidade automóvel, mas impregnado de uma anarquia grunge do sul da Califórnia. Demorou algum tempo, mas, assim que encontraram a voz certa e o formato de conteúdos adequado, a Hoonigan disparou e Ken voltou a ter nas mãos um enorme sucesso comercial. Mais do que qualquer pessoa que conheci no mundo automóvel, parecia ter o toque de Midas: tudo se transformava em ouro.

A título pessoal, demonstrou-me uma enorme generosidade quando eu estava numa situação difícil. Em 2014, o meu canal DRIVE, financiado pelo YouTube, foi cancelado, o que me deixou em baixo e sem rumo. Ele e Brian contactaram-me e convidaram-me a ir assistir às filmagens de Gymkhana Seven, em Los Angeles, oferecendo-se para me pagar a realização de uma curta-metragem sobre o novo Mustang que ele iria conduzir.

Não precisavam de mim, nem tinham de me pagar, mas foi um impulso de que lhes ficarei eternamente grato. O Hoonicorn acabaria por tornar-se na máquina de destruição de pneus mais reconhecível de Ken e, na versão biturbo, levou Matt LeBlanc a deslizar por Londres naquele fantástico filme do Top Gear de 2016.

Acho que muito poucas pessoas conheciam realmente Ken, eu incluído. Era um homem reservado e inteiramente dedicado à família. Um amigo meu que trabalhou recentemente com ele descreveu-o como “um verdadeiro cavalheiro, mas, acima de tudo, devia ser o melhor pai de sempre”. É isso que torna esta perda tão terrível: a comunidade automóvel está de luto, mas todos os nossos pensamentos estão com a sua mulher, Lucy, e os seus filhos. Ken viveu uma vida maior do que a maioria e, por isso, o seu legado perdurará, tal como o do seu herói, Colin McRae.

Como reagiu o mundo do automobilismo

“Ken era um visionário, um pioneiro e um ícone. E, mais importante ainda, um pai e marido. A sua falta será profundamente sentida” - Hoonigan Industries

“Que pessoa incrível para aprender, enfrentar em competição e admirar ao longo das últimas duas décadas. A influência de Ken no mundo automóvel não pode ser quantificada. Além de ter aberto um caminho que os restantes poderíamos seguir no marketing do automobilismo, Ken Block era, acima de tudo, um homem inteiramente dedicado à família” - Tanner Foust

“Cresci a ver Ken Block; ele e os Hoonigans moldaram a minha personalidade e o meu interesse por automóveis. A comunidade automóvel e o mundo do desporto motorizado estão de coração partido” - Ryan Vargas

“Guardarei para sempre os quase 20 anos de amizade e diversão que partilhámos por todo o mundo, a desfrutar das nossas paixões. Estarei eternamente grato pela inspiração constante, pelas oportunidades e pelos conselhos que me deste. Obrigado pelo que trouxeste ao mundo, criando tantos sorrisos e inspirando multidões” - Vaughn Gittin Jr

“Um talento extraordinário que fez tanto pelo nosso desporto. Era um verdadeiro visionário, com um estilo próprio e um sorriso contagiante. O nosso desporto perdeu um dos melhores, mas, mais importante ainda, perdeu um grande homem” - Jenson Button

“Estou devastado por saber da morte de Ken Block. Era uma pessoa incrível, que viveu sempre a vida ao máximo. Lembro-me da primeira vez que trabalhámos juntos e de como era positivo. Tanto talento ao volante. Há anos, passámos momentos fantásticos a praticar heliesqui e snowboard no Canadá. Tínhamos um enorme respeito um pelo outro. A sua falta será verdadeiramente sentida, e os meus pensamentos e orações estão com a sua maravilhosa família. Partiu cedo de mais. Descansa em paz, Ken” - Lewis Hamilton

“Ken era um visionário, tão apaixonado e inspirador. Como ninguém, sabia combinar o desporto motorizado com um grande espectáculo. Viveu a vida ao máximo e nunca esquecerei o seu sorriso e a sua gargalhada” - Sébastien Ogier

“Ken foi um pioneiro na indústria automóvel. Quando lançou Gymkhana em 2008, deixou todo o escritório do Top Gear de olhos bem abertos, maravilhado. Tivemos o prazer de trabalhar com Ken em várias ocasiões ao longo dos anos, e as suas contribuições eram sempre muito memoráveis e empolgantes para o nosso público. Foi uma honra termos tido a oportunidade de trabalhar com ele e aprender com ele” - Alex Renton, produtor executivo do Top Gear

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é especialista em mobilidade e planeamento de percursos, dedicada à análise e otimização de itinerários no contexto da rota x. Investiga dados de tráfego, segurança e acessibilidade para criar recomendações práticas, com interesse particular em sustentabilidade, experiência do utilizador e integração com soluções digitais de navegação.

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