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Rolls-Royce Black Badge: a história do preto mais extremo

Carro preto de luxo Rolls-Royce com faróis acesos estacionado diante de edifício moderno à noite.
Neste artigo
  1. Rolls-Royce Black Badge: luxo em tons escuros
  2. Do Goodwood à Champagne no Ghost Black Badge
  3. Vantablack e o preto mais extremo

Feche os olhos: o que vê? Preto. Os planetas nascem do negro, e é nele que a vida sucumbe. Nenhuma outra cor provoca uma resposta emocional como o preto. A primeira cor com que pintámos - recorrendo a gordura animal e carvão - foi o preto. É usado por padres e penitentes, mas é igualmente querido por criadores de moda e fascistas. O preto é a cor primordial. A original. Existia antes da luz e, desde então, acumulou conotações negativas. É um vazio, mortífero e impróprio para a vida. Porém, é também uma cor permanentemente contraditória: sinal tanto de santidade como de pecado, de riqueza e pobreza, de bem e mal. O preto está ainda ligado ao secretismo e à furtividade - Black Ops, para todos os fãs de Call of Duty - e Yves Saint Laurent afirmou: “O preto é a ligação que une a arte e a moda”. Não admira, portanto, que a indústria automóvel não tenha resistido à tentação. O preto vende automóveis.

Foi a cor de pintura mais escolhida no Reino Unido entre 2009 e 2012 e, actualmente, cobre mais de um quinto dos carros que circulam nas estradas. E não é preciso ser um obcecado para reparar na crescente presença de apontamentos pretos nos automóveis: dos habitáculos em «preto piano» às jantes pretas e grelhas escurecidas. Há ainda as verdadeiras edições especiais negras - afinal, não há forma de tornar um Toyota RAV4 mais sedutor e comercializável do que através da Black Edition. Mas uma marca levou esta ideia mais longe, criando uma gama inteira dedicada ao preto: a Rolls-Royce.

Rolls-Royce Black Badge: luxo em tons escuros

Em 2016, a Rolls apresentou a Black Badge. Com a intenção de criar uma vertente nova e ligeiramente rebelde, capaz de rejuvenescer a marca e abanar a sua imagem rígida, pálida, masculina e envelhecida, a Black Badge oferece aos proprietários de Rolls - esteve disponível em todos os modelos excepto no Phantom, até agora - mais desempenho e luxo, enquadrados numa estética contemporânea e escurecida. No estilo tipicamente hiperbólico da Rolls-Royce, estes automóveis mais sombrios destinam-se a «disruptores»: “marginais, visionários e subversivos que moldam o mundo fazendo as coisas de formas que ninguém alguma vez sonha - ou ousa - experimentar”. Está bem.

Fotografia: Mark Riccioni

Na prática, isto significa que são deliberadamente pensados para quem configura o carro de Supreme vestido, em vez de usar fato, e o paga em criptomoedas, não com cheques. No essencial, foi uma estratégia bem-sucedida, que certamente motivou algumas celebrações nas salas de administração: a Black Badge representa hoje mais de 27 por cento de todas as vendas da Rolls-Royce. Ainda assim, as figuras influentes e endinheiradas já decoravam os Rolls de preto há muito mais tempo do que se imagina, muito antes de começarmos a pagar coisas com NFTs em JPEG de 8 bits.

“Nos anos 30, as pessoas encomendavam carros pretos como declaração de moda”, explica Malcolm Tucker, historiador da Rolls-Royce, “mas o Duque de Gloucester [o terceiro filho do Rei Jorge V e da Rainha Maria, e tio da Sua Falecida Majestade a Rainha Isabel II, caso não tenha a árvore genealógica real à mão] já tinha o espírito Black Badge.”

O Duque afastou-se da norma aceite ao pintar o seu Phantom V numa combinação de preto mate em todas as superfícies horizontais e preto brilhante nas verticais - algo mais facilmente associado a Jay-Z do que a um membro da nobreza. E não foi o único a aderir à tendência.

Os Rolling Stones cantaram, célebremente, ‘Paint it Black’, mas foi um dos seus rivais mais ferozes quem pôs em prática essa letra icónica. John Lennon é conhecido pelo seu Phantom pintado de amarelo vivo, semelhante a um barco de canal, repleto de flower power, arabescos ciganos e signos do zodíaco. Mas - e isto pode surpreendê-lo - foi, na verdade, o padrinho do movimento preto sobre preto sobre preto.

“John queria o seu Phantom V inteiramente preto”, conta Malcolm. “Foi a primeira pessoa no hemisfério ocidental a instalar vidros escurecidos, depois de ter visto algo semelhante nos carros que transportavam mulheres na Índia. Mas não queria apenas um carro preto: queria-o preto em toda a parte, por dentro e por fora, incluindo todos os elementos brilhantes que normalmente receberiam acabamento em cromado ou aço inoxidável.”

Sessenta e dois anos depois, o fascínio deste visual não diminuiu. Não que estejamos a tentar superar um Beatle - ele já teve manchetes suficientes -, mas, se estamos a investigar a atracção do preto, seria errado não termos também um carro preto. Por isso, senhoras e senhores, amantes e detractores, o automóvel que aparece ao longo desta reportagem é o Rolls-Royce mais preto de sempre. Ponha isso no seu arquivo, Malcolm.

Com base no mais recente modelo Black Badge - o novíssimo Ghost -, o nosso Rolls-Royce é um exemplo literalmente brilhante de austeridade cromática. Tem presença, não tem? A utilização obsessiva de uma só cor tornou as linhas afuniladas, descontraídas e contidas do Ghost, bem como a sua frente zangada e autoritária, um pouco mais duras. Mas que magia negra está aqui em jogo?

Antes de mais, a pintura. Surpresa: é preta. Trata-se do preto mais profundo, mais escuro e mais denso que a Rolls alguma vez aplicou a um automóvel: 45 kg de tinta, terminados com duas camadas de verniz transparente e cinco horas de polimento manual. A linha pintada à mão na carroçaria é de um preto mais claro. Afinal, não existe apenas um preto, mas muitos pretos. Isso fala ao nosso cérebro antediluviano, no qual a luta contra a escuridão e a procura de luz ensinaram gradualmente os nossos olhos a distinguir graus e qualidades das sombras, bem como uma variedade de pretos: há pretos mate, brilhantes, claros e escuros, intensos e delicados. Este Ghost reúne-os a todos, com textura, densidade, brilho e sofisticação técnica adicionais.

Veja-se, por exemplo, as jantes. Têm 21 polegadas e são compostas por 22 camadas de fibra de carbono dispostas em três eixos, com um cubo de alumínio forjado em 3D unido ao aro por fixadores de titânio de qualidade aeronáutica. A icónica tampa de cubo flutuante R-R da marca? Também tem acabamento preto. Tal como as pinças dos travões, naturalmente. O Espírito de Êxtase e a grelha Pantheon mantêm-se presentes, mas recebem um revestimento cromado mais escuro graças a um electrólito de crómio específico, activado durante o processo de revestimento para criar aquele aspecto de cromado fumado.

No interior há pele, costuras e debruns pretos, além de um forro de tejadilho preto com efeito de céu estrelado. A espessa e felpuda lã de cordeiro preta, oriunda da mais requintada linhagem de ovelhas negras, reveste o piso; e por trás do emblema Black Badge do Ghost - símbolo de uma “procura implacável de poder” - encontram-se copos e um decantador únicos em vidro preto. Infelizmente, o frigorífico é branco. Pior ainda: está vazio. A desculpa perfeita para uma pequena viagem.

16 minutos e 35 segundos

Do Goodwood à Champagne no Ghost Black Badge

Saímos de Goodwood rumo ao túnel da Mancha, fazendo uma paragem junto de um raro veleiro de regata Cape 31, da classe de 12 m, em preto. Hoje, o preto está associado à velocidade executiva em terra, no mar e no ar, e poucas coisas parecem tão elegantes e cool como uma lâmina de fibra de carbono preta, impulsionada pelo vento. É fácil presumir que, por serem mais recentes e surgirem em mais vídeos de rap do que os Rolls-Royce antigos, os Black Badge possam ter perdido a capacidade característica de transformar tempo e distância numa confortável sensação de deslizar. Este Ghost não a perdeu: é silencioso, sereno e representa a facilidade de condução no seu melhor. A prova é que, no que parecem poucos minutos, chegamos à região francesa de Champagne.

Além de ser a casa do espumante de luxo necessário para abastecer aquele frigorífico indecentemente vazio, Champagne possui excelentes estradas para perceber o que vale este Ghost Black Badge. Lembre-se: este é o Rolls para quem conduz. Um modelo criado para o dinamismo. Então, será que Eleanor - a senhora alada à frente - tirou os chinelos, calçou sapatilhas de corrida e aspirou sais aromáticos? Bem, as alterações mecânicas face a um Ghost normal são inexistentes: tudo resulta de afinações de software, não de peças novas e mais rápidas.

A cilindrada do V12 biturbo de 6,75 litros de série do Ghost permanece inalterada. Nas palavras da Rolls, foi considerada “suficiente”. Já a potência não. Por isso, recebeu mais 29 bhp, chegando aos 592 bhp, e outros 37 lb ft de binário. A suspensão pneumática tornou-se “mais volumosa”. Basicamente, colocaram mais ar nos foles para ajudar a reduzir o adornamento da carroçaria. E o resultado impressiona. Se antigamente era necessária uma quilha para manter estáveis os antigos R-R, este sistema de suspensão percebe quando a condução se torna mais empenhada e reage em conformidade.

Há também um modo de condução. Normalmente, a Rolls não acredita em modos: acredita que menos é mais, desde que o que fica seja de classe mundial. Contudo, há um botão saliente no fino selector de mudanças, semelhante a uma varinha: o modo Low. Pense nele como um modo Sport aristocrático. Ao activá-lo, a caixa de oito velocidades reduz para metade o tempo de passagem das mudanças, disponibiliza todo o binário mais cedo, torna o acelerador mais directo e deixa o escape um pouco mais audível... para um Rolls-Royce. Não existem aqui mapas de estalidos à RS3/Golf R. Os travões também foram afinados para morderem mais cedo e exigirem menos curso de pedal. É isso que os pilotos de F1 pedem, não os motoristas. Conduzir um Rolls-Royce mais depressa é uma experiência estranhamente oxímora, mas gratificante. E estes Black Badge são rápidos. Com quase 600 bhp e tracção às quatro rodas, apesar de ser uma máquina pesada, cumpre os 0–100 km/h em 4,5 segundos. Sim, a direcção é leve e pouco comunicativa, mas elegantemente linear. Ainda assim, deslocar uma grande besta preta como esta abre o apetite. Felizmente, em Champagne não faltam lugares onde o matar - e abastecer o frigorífico.

Descemos a um refúgio subterrâneo para escolher uma garrafa de Leclerc Briant, Abyss, de 2016. Cada uma destas garrafas cobertas de cracas passou três anos sobre as borras antes do dégorgement. Depois, foi submersa ao largo da Bretanha, a 60 metros de profundidade. Veja-se: o preto - ou a escuridão - serve para mais do que dar abrigo ao Papão. Também é bom para a bebida. Estar no fundo do oceano ajuda a tornar o espumante ainda mais espumante e oferece-lhe uma óptima história para contar quando o abrir num jantar. Só tenha cuidado com as cracas.

Vantablack e o preto mais extremo

Talvez tenha reparado que o preto se tornou um íman para a indústria do luxo. Mas há um lugar que é o seu epicentro: a estância de esqui de Courchevel 1850. É para lá que seguimos, cruzando pelo caminho uma lista de referências culturais negras: iconografia religiosa preta, sinal ou promessa de renascimento; as ruas estreitas de calçada e as casas em enxaimel da Troyes medieval, época em que o preto era considerado austero e virtuoso; e, por fim, a subida às alturas vertiginosas dos Alpes. Aqui em cima, quanto maior a altitude, mais ricos são os visitantes e mais luxos noir se vêem: chalés pretos de muitos e muitos milhões de libras, esquis pretos e pequenos cães pretos e felpudos. Há ainda helicópteros pretos, porque os teleféricos são para quem veste equipamento de esqui de cores vivas.

O preto está inerentemente ligado ao luxo desde o século XIV, quando a roupa preta era ruinosa de tão cara e ficava reservada aos guarda-roupas de pessoas de nascimento, fortuna ou estatuto elevados. Hoje em dia, um sujeito magricela como eu pode comprar na internet uma camisola de gola alta preta e barata - como os tempos mudaram. Mas existe um preto mais preto do que o preto. E é o mais desejado de todos: o Vantablack.

Antes de avançarmos, recomendo que prepare o seu cérebro mais brilhante, porque vamos agora abandonar o mundo dos pretos normais e entrar no domínio dos «superpretos», ou seja, pretos com reflectância hemisférica inferior a um por cento. O Vantablack é um deles e, de facto, detém o recorde mundial de substância artificial mais escura. E é produzido por um homem chamado Ben... numa unidade industrial ligeira ao lado de uma Screwfix, na costa sul de Inglaterra.

“O que torna o Vantablack único é o facto de alterar a sua percepção”, afirma Ben Jensen, director técnico e fundador da Surrey NanoSystems. “Através da utilização de nanotubos de carbono [uma estrutura cilíndrica de carbono, minúscula e semelhante a um cabelo, 10 vezes menor do que um vírus], a luz é absorvida, pelo que a reflexão é uniforme em todos os ângulos e o resultado parece plano.”

Dito de forma simples, qualquer objecto tridimensional revestido a Vantablack perde por completo a sua dimensionalidade. O efeito é inquietante: os seus olhos são enganados e passam a ver formas tridimensionais como se fossem bidimensionais. Mais do que isso, quando se coloca Vantablack junto de algo mais próximo de um preto tradicional, esse objecto simplesmente desaparece. Tornou-se um material muito controverso no mundo da arte, sobretudo depois de Anish Kapoor ter obtido os direitos artísticos exclusivos para usar a cor, enfurecendo muitos - mais uma demonstração do fascínio exercido pelo preto. Mas, para nos mostrar o que é possível, a equipa extremamente inteligente de Ben produziu o único Espírito de Êxtase em Vantablack do mundo. É a cereja perfeita no topo do Rolls-Royce mais preto de sempre: um emblema monocromático, distinto, reservado e tímido, de «OLHEM PARA MIM» que, na realidade, não se consegue ver. É o preto na sua versão mais sublime, rebelde e transgressora.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é especialista em mobilidade e planeamento de percursos, dedicada à análise e otimização de itinerários no contexto da rota x. Investiga dados de tráfego, segurança e acessibilidade para criar recomendações práticas, com interesse particular em sustentabilidade, experiência do utilizador e integração com soluções digitais de navegação.

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