Ao fim de cerca de oito horas desta odisseia digna de lenda, bato no muro. Não literalmente, porque isso seria um desastre. Sinto-me feito em pedaços. Conduzo há tanto tempo que o pescoço e os ombros se fundiram numa massa amorfa de tendões e cartilagem; comecei a mover-me como o Michael Keaton em Batman. Acontece outra vez à décima segunda hora. É então que pondero atirar o Audi Q4 e-tron, à Thelma e Louise, da circular de Coventry para a confusão cinzenta e abstracta que é o antigo centro desportivo, só para acabar com o tédio. Ainda faltam duas horas.
- Fotografia: Jonny Fleetwood
Um Audi Q4 e-tron na circular de Coventry
Podem estar a perguntar-se como fui parar a este sarilho, mas, na verdade, a culpa é inteiramente minha. Achei graça à ideia quando era outra pessoa a fazê-lo: se os heróis ex-militares da Mission Motorsport conseguem fazer hipermiling com um Renault Zoe, porque não haveria a TopGear de tentar? Claro que não num Zoe; precisaríamos de algo mais requintado. E nada de pista. Porque não a circular de Coventry?
Foi assim que acabei num Audi Q4 e-tron novo, no coração da Detroit de loja dos trezentos, a cidade britânica do automóvel. Tenho um carinho especial pela paisagem de betão em movimento de Coventry, pois cresci aqui. Nada como conhecer bem o terreno.
Só que tudo mudou. Há praças por todo o lado, zonas de circulação partilhada e blocos estudantis opressivos, de inspiração soviética, que brotaram como ervas daninhas. Um deles fica a poucos metros da vedação, no ponto em que o viaduto cinzento da circular contorna a extremidade oriental do centro da cidade. À quarta ou quinta volta, consigo acenar a um simpático jovem que está a preparar o almoço. Que lugar tão acolhedor.
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O novo Q4 e-tron é uma ferramenta curiosa para este desafio. Curiosa porque, para um carro eléctrico, é até um pouco aborrecido. É, sem dúvida, um Audi agradável, com o indispensável habitáculo requintado e a solidez tranquilizadora da marca. É espaçoso: há lugar para cinco pessoas e muita bagagem, se estiverem dispostos a ser imprudentes com o consumo de electricidade. Mas o Q4 e-tron não faz alarido acerca do grupo motopropulsor; limita-se a cumprir silenciosamente a sua função. Literalmente. Quase não se ouve um ruído da suspensão ou dos limpa-vidros. Surge um breve chocalhar do lado do passageiro ao fim de cerca de quatro horas, mas afinal é a embalagem de 12 pacotes de batatas fritas que trouxe para petiscar e que caiu contra a porta.
Há três zonas de climatização e tudo isso, mas não posso usar nenhuma porque consomem energia de forma desastrosa. As minhas latas de limonada turva aqueceram até um ponto pouco apetecível. Sou algo mimado enquanto condutor: presumi que o Audi tinha cruise control adaptativo, mas quase embati num camião às 5h00, a caminho daqui. Também não há centragem na faixa, embora dificilmente conseguisse lidar com este circuito ondulante. Não me importo de fazer isto manualmente, mas teria ajudado a comer as batatas fritas.
Penso no preço de tabela de £47k deste S line de gama intermédia, cerca de £2k acima da versão Sport, mas que acrescenta jantes maiores, suspensão desportiva e iluminação ambiente LED adicional. Desliguei-a porque estou a poupar até ao último electrão. Não sei se pagaria esse extra. Já a bateria de 77kWh é exactamente aquilo de que gosto. Os seus 312 miles de autonomia WLTP são como Prozac para a ansiedade de autonomia: bastaria carregar este carro de vez em quando e esquecer o assunto. Não é o meu caso. Quero ir muito mais longe do que isso.
A4053: a história da circular de Coventry
A circular de Coventry mede 2.25 miles e tem nove cruzamentos, uns a seguir aos outros, sem descanso. Tecnicamente, chama-se A4053 e é a estrada mais movimentada da cidade, utilizada diariamente por cerca de 60,000 veículos. Embora não saiba bem como os contam: na realidade, poderiam ser apenas 400 veículos, se todos estivessem a fazer tentativas de hipermiling semelhantes à minha.
A construção arrancou em 1959, o primeiro troço ficou concluído em 1962 e a obra inteira terminou em setembro de 1974. A circular esteve anos em planeamento: começou por ser uma sucessão tranquila de rotundas e acabou por se transformar na brutalista montanha-russa que conhecemos hoje, seguindo aproximadamente o traçado da muralha que rodeava aquela que se dizia ter sido uma bela cidade medieval.
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Contudo, este anel rodoviário representava, para os figurões da cidade, o início de uma nova era. Coventry era um centro de excelência industrial, a jóia da coroa da produção automóvel mundial. A bicicleta tal como hoje a conhecemos foi inventada aqui. O primeiro tanque, o primeiro camião basculante e os piscas dos automóveis foram inovações saídas das fábricas de Coventry.
A esperança florescente das décadas de 1950 e 1960 desfez-se nos anos 1980 e 1990, à medida que as jóias eram penhoradas e a circular, juntamente com os grandiosos projectos de vaidade de outrora, se transformava em cicatrizes na paisagem. Coventry divide opiniões. Michael Lightbone, académico e músico, chegou a criar um EP com sons gravados através dos pilares de betão da circular, música descrita como tendo “uma desolação industrial difícil de superar”. Todos concordaremos, seguramente, que Coventry não tem rival na sua desolação.
Também me sinto bastante desolado ao volante do Audi, embora não creia que a culpa seja do carro. O início da tentativa foi pouco promissor: 3.9 miles por kWh na primeira volta. Pelo menos, estaria despachado antes do almoço. Fui melhorando devagar, até chegar aos 5.2mpkWh à décima volta. Teria de fazer melhor do que isso.
Antes de partir, falei com Paul Horrell, o homem internacional da electricidade da TG, para discutir tácticas. É tudo muito técnico e difícil de executar, mas, no essencial, o seu conselho resume-se a conduzir muito devagar e a não usar nada no carro.
Hipermiling durante 14 horas
Excepto o sistema de infoentretenimento, que vou precisar de usar. Passo as primeiras horas a aprender francês. Basicamente, limitei-me a comer batatas fritas durante os dois últimos confinamentos, por isso mais vale tentar melhorar-me durante esta privação de liberdades sobre rodas. Acabo por conseguir fazer uma reserva para uma pessoa às 19 horas, caso consiga alguma vez escapar a este rio lento infernal. É preciso todo o meu autocontrolo para resistir à vontade de carregar a fundo no acelerador e acabar com isto de uma vez: afinal, se o melhor que ela consegue são 200 miles, não há nada a fazer. A aceleração é surpreendentemente viva, mesmo com as definições Eco elevadas até 11.
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Despacho os podcasts e ouço alguma música. Volta após volta após volta, sempre às voltas, sem fim. Já nem sei se começo a sentir tonturas. Inicio o percurso no sentido anti-horário durante quatro horas e depois experimento o outro sentido para equilibrar as coisas. A viagem no sentido horário parece um pouco mais frenética, com entradas no trânsito ligeiramente mais loucas e movimento um pouco mais intenso. Após outras quatro horas, volto a trocar. E assim o tempo passa.
Penso na minha mortalidade e nos entes queridos que deixo para trás. Penso no facto de todas as batatas fritas de marca branca, com sabor a carne, que escolhi saberem ao mesmo. Penso nos irritantemente abreviados nomes de localidades pintados no alcatrão, porque o nome completo não cabe: sítios como KEN’TH, NUN’TN e W’WICK, de que me lembro da infância. Penso ainda que a Audi prevê vender 20,000 destas coisas no próximo ano, tornando-o no segundo Audi mais popular no Reino Unido, atrás do A3. São números sérios e um sinal de que o veículo eléctrico chegou ao mercado de massas.
Por volta da décima hora, ouço umas buzinas cómicas enquanto estou parado nos semáforos da rotunda do cruzamento um, a única interrupção no ciclo contínuo da circular. O meu pai apareceu no seu Smart cabrio, uma crise de meia-idade austera. Vai trabalhar, mas grita pela janela que mais tarde vai fazer salsichas, feijão e puré de batata. Espero que seja o jantar dos campeões. Segue caminho a velocidade - mais depressa do que eu, pelo menos - e tomo nota mental de lhe dizer que a luz de travagem esquerda não funciona. Pai, se estás a ler isto...
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Hoje em dia, esta circular simplesmente não seria permitida. É tresloucada, absurda e perigosa. Uma névoa de curvas apertadas, lombas cegas que nos lançam para o trânsito vindo de todas as direcções e rotundas sem fim. É uma partida cruel para o automobilista desprevenido; a verdadeira marca de um habitante experiente de Coventry é conseguir atirar o carro pelas entradas mortais no trânsito sem hesitar.
Aliás, a primeira coisa que o meu pai pergunta quando lhe falo do desafio é se vou conduzir a circular “como deve ser”. Supostamente, deve-se manter à direita até chegar à saída pretendida, para facilitar a entrada e a saída dos outros carros. Experimento, mas andar a 33mph parece mais seguro na faixa exterior.
Volta após volta após volta: 177, para ser exacto. A bateria ainda indica quatro por cento, mas a minha mãe chama-me para jantar. A necessidade obriga. Passei 14 horas a levar o Q4 e-tron à volta da circular de Coventry, a um ritmo insuportavelmente glacial. As 177 voltas perfazem 400 miles, a 5.6mpkWh. Uma vitória esmagadora sobre os 312 miles de autonomia oficial. Encarei a Morte e o Tédio - primos próximos, como sabem - e saí do outro lado. Um herói? Não gosto de usar essa palavra. Mas talvez.






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