A pequena cidade empedrada de Lucca, no centro de Itália, ostenta uma das muralhas renascentistas mais antigas e mais bem conservadas de toda a Europa, com uma história que recua até 180 a.C. e à fundação da colónia romana de Luca.
No interior destas fortificações há uma fonte inesgotável de cultura: um palácio que pertenceu em tempos a uma poderosa família italiana, uma longa lista de igrejas históricas - uma das quais remonta ao século XII - e a própria casa do célebre compositor italiano Puccini.
Há também um escritor de Top Gear em apuros, a tentar melancolicamente tirar um pequeno automóvel da cidade. Como Jeremy, Richard e James descobriram há mais de uma década, Lucca - dolorosamente bonita, carregada de história e uma imagem de postal da Itália renascentista - é um labirinto dos diabos.
Fotografia: Olgun Kordal
Por isso, benvenuti, meus amigos: o vosso correspondente fala-vos em direto de... algures na pequena cidade empedrada de Lucca, no centro de Itália. Felizmente, ninguém parece ter reparado que o fotógrafo Olgun e eu estamos completamente perdidos neste centro cultural escondido na Toscânia, porque talvez estejamos no epicentro da cultura automóvel italiana.
Sim, é um Fiat 500 clássico, o original nuova cinquecento, tão representativo dos carros pequenos quanto da própria Itália. É também a razão pela qual avançamos inadvertidamente por uma zona pedonal depois de uma curva errada, sem que alguém nos grite por circularmos no sentido proibido.
Francamente, poderá ser a coisinha mais adorável alguma vez criada. Lançado em 1957 para suceder ao talvez ainda mais adorável topolino - literalmente, «ratinho» -, o 500 era uma pequena demonstração de engenho italiano, com motor traseiro.
O brilhante projecto de Dante Giacosa deu ao 500 dimensões minúsculas, permitindo-lhe caber literalmente em qualquer lado, além da configuração de motor traseiro e de uma forma económica e eficiente de os italianos se deslocarem. A Itália, e não só, respondeu em força: entre 1957 e 1977 foram vendidos mais de quatro milhões de Fiat 500.
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O Fiat 500 da TRICC e a sua preservação
Mas estamos em 2023, e é cada vez mais difícil encontrar estes carros. «Ainda há muitos a circular, mas há menos do que havia há cinco anos», afirmou Amadeo Raffaelli Provenzali, cofundador da The Real Italian Car Company. Juntamente com os amigos Mattia Vita e Anthony Peacock, está empenhado em salvar o cinquecento da extinção, restaurando-o e preservando o seu legado para que possa ser apreciado nos próximos anos.
O pequeno carro vermelho que atravessa lentamente uma praça cheia de gente é o primeiro 500 totalmente restaurado a sair desta jovem empresa, que começou há cinco anos quando um grupo de amigos se limitava a reparar os seus próprios carros.
«Começou como um passatempo, como todas estas coisas», explicou Peacock. «Todos tínhamos os nossos 500, restaurámo-los, e depois a família e os amigos começaram a perguntar-nos: “Também posso ter um?” Por isso pensámos: vamos avançar.»
O exemplar vermelho é, possivelmente, a melhor montra do trabalho da TRICC. «Veio da Sicília, que tem praticamente o clima ideal: quente durante todo o ano. Os carros que encontramos no norte de Itália têm um pouco mais de ferrugem», disse ele entre risos.
Apesar de o carro já estar em «bom estado» no início, o processo é o esperado: desmontar tudo até ficar apenas a carroçaria e, depois, reconstruir e recondicionar cada componente de raiz. «O motor, a suspensão, a instalação eléctrica, o interior... praticamente tudo é novo», disse Provenzali. Surpreendentemente, os preços começam nos 10 000 €, cerca de 8 mil libras, e haverá oportunamente um configurador em linha.
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Encontrar as peças é tão difícil quanto seria de esperar, embora não seja impossível. Provenzali contou que, nas suas viagens por Itália, por vezes entrava numa garagem antiga com peças novas de época para Fiat 500 guardadas por ali - por exemplo, os bancos do carro vermelho são peças Fiat originais que estavam simplesmente a acumular pó. No resto dos casos, consulta a sua extensa lista de contactos ou recebe mensagens de conhecidos que têm algo que lhe poderá interessar.
Por vezes, fazem mesmo as peças, trabalhando numa garagem rústica nas traseiras de uma villa toscana. E sim, é tão romântico quanto parece. «São apenas pequenas peças - suportes, dobradiças das portas, aquelas coisas complicadas de encontrar», explicou Peacock. Embora não se dediquem a fabrico complexo, «construir estas pequenas peças e aperfeiçoar os carros é exactamente aquilo que os antigos faziam».
Olgun e eu estamos a transformar-nos em antigos enquanto tentamos encontrar as portas da cidade. O receio de acabarmos em breve como elementos permanentes da cultura de Lucca parece bem fundamentado, mas não há qualquer receio quanto ao resistente pequeno 500 da TRICC. Esqueça a ideia dos velhos Fiat como pequenos príncipes caprichosos e imprevisíveis: este está a comportar-se soberbamente.
Conduzir o Fiat 500 pelas ruas de Lucca
Enquanto «navegamos» - ou seja, apontamos às cegas e esperamos pelo melhor - junto a mais uma maravilha arquitectónica, «olhem, a Basílica de San Frediano!», sob o calor abrasador do meio-dia, enfiando a carroçaria diminuta do 500 por ruas estreitas e ainda mais perto dos clientes que bebem cafés expresso, o nosso companheiro rosso não falhou uma única vez.
Conduzir algo tão vivo é uma experiência plenamente gratificante. É uma coisinha vibrante, ruidosa, simpática, cheia de vida e personalidade. O volante contorce-se nas mãos e comunica constantemente. É grande também, pelo que se conduz mais com os braços do que com os pulsos. O carro mexe-se sob nós, captando cada nuance do piso. No interior, não há nada que distraia: o habitáculo, surpreendentemente espaçoso, é tão simples quanto possível. Melhor ainda para nos concentrarmos na arte de... o dominar à força. Parece robusto e pronto para a diversão: a nossa entrada na cidade passou pelas gloriosas paisagens da Toscânia, e o 500 pareceu perfeitamente talhado para devorar estradas rurais com alegre abandono.
O trabalho da TRICC é notável: não parece artificialmente «novo», mas tudo transmite solidez, funcionalidade e a sensação de estar no apogeu deste carro. Não é nada potente - 19 cv! -, mas está perfeitamente vocacionado para a cidade. E, embora a caixa deste carro vermelho não tenha sincronização - algo que não convém estragar enquanto se está perdido; «olhem, a Torre delle Ore!» -, a TRICC disponibiliza uma opção com sincronização para mudanças mais suaves. Experimentámos brevemente outro carro da TRICC com esta caixa, e pareceu excelente.
Mais algumas curvas erradas e - «olhem, estamos diante da magnífica Chiesa di San Michele in Foro!» - chegamos a outra igreja histórica, datada dos anos 1100. O 500 tem estado cheio de vontade desde o início e não perdeu o ritmo: não houve problema algum com o motor de 594 cc - este é um R, pelo que recebe uma unidade ligeiramente maior -, com a caixa ou com a construção em geral. É a altura ideal para parar e respirar um pouco. Afinal, não há ar condicionado, pelo que o habitáculo está um pouco... quente.
Afinal, o 500 tem passe livre. Não temos realmente autorização para estar ali, mas as autoridades locais não parecem importar-se. Nem a sucessão de turistas que faz fila para tirar fotografias ao seu lado. Apesar de a Fiat ter vendido milhões destes carros, hoje são cada vez mais difíceis de encontrar e, por isso, uma visão rara. Mesmo em Itália. O que torna a sua preservação, tal como a das fortificações romanas onde estamos perdidos, ainda mais importante.
«Há dez anos, estas coisas estavam por todo o lado», disse Peacock. «Há cinco anos, ainda não era assim tão mau, mas agora há muito menos. Daqui a mais cinco anos, quem sabe? Essa é a parte especial de manter estes carros vivos: também estamos a manter viva a tradição.»
Assim, a pequena cidade empedrada de Lucca, no centro de Itália, em breve poderá ostentar alguns dos cinquecentos mais antigos e mais bem preservados. Desde que consigamos sair deste labirinto dos diabos.






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